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Oct 24, 2014

Sonho: A loira no bar (24/out/2014)

Hoje eu sonhei com aquela loira de novo. Ela é alguém que eu conheço há muitos anos, e eu gosto muito dela. Ela é alguém que eu nunca desejei como geralmente homens desejam mulheres, mas sim, eu desejo o seu bem estar. Ela é alguém que eu me preocupo muito. E tirando o mundo em que vivemos por base, eu estou seguro de que ela não entende esse afeto que sinto por ela. Sempre que digo que gosto dela, estou certo de que passam mil coisas pela cabeça dela, exceto o que eu estou querendo dizê-la. Mas por que eu continuo dizendo? Porque é da minha personalidade!

De tempos em tempos eu sonho com ela. Sonhos muito variados. Os sonhos mais caóticos eu reflito bastante pois hoje sei que ela se tornou alguma espécie de símbolo para mim. Então é como se esses sonhos mais caóticos, não fosse exatamente "ela" quem estivesse ali, mas sim um lado meu que se parece com ela.

Eu sempre costumo escrevê-la pedindo notícias quando tenho sonhos ruins com ela. Claro que ela não entende isso, ainda mais porque ela é irreverente a assuntos do tipo viagens astrais, regressões, espiritismo e etc... Mas somente recentemente tive a oportunidade de, em uma conversa a sós que tivemos, confessá-la de que quase sempre que eu sonho com ela, ela está chorando. Pois todas as vezes em que eu a dizia "Ei! Sonhei contigo hoje. Está tudo bem por aí?" eu nunca contava como o sonho tinha sido, pois eu sei que ela não se interessa por esses assuntos. E nem sei se ela sequer se interessa sobre o que eu penso ou deixo de pensar sobre ela.

Essa é a verdade. Eu quase sempre sonho com ela triste, em dias nublados, chorando. E sempre que isso acontece eu fico abalado ao longo do dia, e certas vezes até por uma semana inteira. Hoje por exemplo, eu acordei chorando.

Porém hoje, foi a primeira vez nesses dezoito anos que eu a conheço que eu sonhei que eu a beijava. Assim, beijando como geralmente um homem deseja fazer com uma mulher.

O local era um clube grande desses com piscinas, restaurantes, área de lazer, quadra de esportes, bares, boates, etc... que de fato existe na realidade. Fica lá na minha terra natal Rio de Janeiro. Bem afastado da cidade, tendo que pegar estradas sinuosas que passam dentre as enormes rochas que só quem esteve no Rio de Janeiro sabe do que eu estou falando. Esse clube fica no topo de uma rocha que é desconexa com o continente, de forma que há uma pequena ponte de pedestres que temos que atravessar para chegar lá, deixando nossos carros para trás.

Eu freqüentava esse clube até meus oito anos de idade, que foi quando eu saí do Rio de Janeiro. Então para que todos entendam, o fato de eu estar lá nesse sonho, remete-me muita nostalgia. Aquela saudade da infância que todos nós temos.

Aconteceu em uma boate dentro desse clube, era uma festa qualquer. E eu, como sempre, não me divirto em festas como a maioria das pessoas fazem. Talvéz porque eu seja de outro naipe. Ou de outro planeta. Quem sabe?

Já estava amanhecendo, e eu estava ali, vagueando por entre os diferentes ambientes daquela festa, até que ao subir umas escadas que levavam a um bar onde o som da música estava bem baixo e o clima ali era mais tranqüilo, eu subia me divertindo com um passarinho que caminhava ao meu lado. Eu estava com minhas mãos nos bolsos e eu dava passos esquisitos como os do passarinho que andava me olhando preocupado se eu iria machucá-lo ou não.

Da mesma forma como não importa o quão gostosa seja a amizade de um ser humano com um animal, o animal é sempre limitado. Com humor e preocupações limitadas a de um animal, portanto não importa o quanto uma pessoa diga que um certo animal o completa e que esse é o amor da vida dele, essa pessoa sempre sentirá solidão no momento em que ela apontará a lua como forma de querer compartilhar um bem estar que ela sente, e o seu animal não fará nada além de contemplar o seu dedo.

Portanto, aquela amizade momentânea que tive com o passarinho não foi recíproca. Pois somente eu estava me divertindo ao andar lado a lado imitando os seus passos e maneira de andar, e curtindo a ilusão de que fôssemos iguais, parceiros de certa forma. Sendo que na verdade ele estava era com medo de eu ser um predador ou não.

Evidentemente o pássaro ali no sonho era uma metáfora, e não um pássaro. A função dele é me fazer refletir sobre o assunto "amizades" nessa vida.

Chegando ao topo das escadas, eu sentia esse enorme cansaço de viver que eu sinto e carrego comigo há muito anos. Essa tristeza que foi disfarçada com um breve sorriso pela caminhada com o passarinho. E eis que eu ouço a vóz dela. Vóz a qual eu tanto gosto de ouvir. Ela disse-me "Nossa! Como tu estás "classudo"!". Eu nem sei se esse termo existe, mas provavelmente foi porque eu estava bem vestido para a festa. Roupas novas, roupas limpas, roupas caras. Apesar de pretas como o meu habitual, era notável a qualidade dos tecidos. Meus longos cabelos deslizando sobre minhas costas e esvoaçando levemente por conta da brisa estavam com um brilho e maciez jamais vistos. Talvéz toda essa impecabilidade de minha aparência, essa tal "classe" que ela se referia, fosse reflexo de minha alma. Reflexo de um estado de espírito. O tal ideal que todos nós buscamos em nossos seres.

Ao ouvi-la, eu olhei para frente, e pude vê-la sentada em uma confortável poltrona daquele bar, e ao lado dela eu via a minha sombra projetada, pois o Sol acabara de nascer e atingia-nos horizontalmente pelas minhas costas. Ela então se levantou e veio até a mim para me cumprimentar quando eu estava prestes a subir o último degrau. Isso fez com que nosso abraço causasse-nos a impressão de que tivéssemos a mesma altura. Fez assim um abraço mais bem encaixado.

Ao abraçá-la, eu ao invés de beijá-la no rosto, eu a beijei no pescoço. Mas foi mais para não interromper o abraço do que por malícia. E eis que ela disse-me algo do tipo "Não faz assim senão eu não me controlo!". Como ela não é de agir assim comigo, aliás esse é um aspecto dela que eu nem sequer conheço pois nós sempre fomos amigos somente, o que eu deduzi no momento foi que ela pudesse estar bêbada.

Daí eu soltei um pouco o abraço de forma que nós pudéssemos nos olhar nos olhos. E eu pude notá-la com uma nitidez que até me assusta. Seu rosto era o mesmo de sempre, as cores todas salientadas por causa do Sol da manhã batendo-lhe diretamente de frente e também pela percepção "a mais" que temos quando estamos sonhando. Era a mesma beleza de sempre, a beleza que eu estou acostumado, a beleza que ela outrora tinha me dito não gostar de ter, porém eu estava admirando-a de uma maneira nova. Talvéz por eu estar embriagado. Mas não embriagado por bebida como ela estava, mas sim embriagado por esse meu sentimento de tristeza e insatisfação por viver nesse mundo. O cansaço dessa missão. A vontade de voltar para casa.

Então eu disse seu nome e em seguida disse-a que ela era linda. Nisso lembrei-me que ela não gosta de ser bela, e ao repetir eu disse-a: "Perdoa-me mas eu te acho muito linda!". E de fato ela é. E talvéz o motivo o qual eu a admire tanto é que por ela não gostar de ser bela, ela não se esforça em ser bela. Ela não forja atributo algum como a maioria esmagadora das outras mulheres fazem. Isso faz dela possuidora de uma beleza genuína. E eu por ter obcessão pelo caminho da verdade, fico ainda mais atraído por belezas desse tipo. Uma pena grande isso ser raro nesse mundo.

Foi nesse momento então que por estarmos tão próximos e ela parecer estar à vontade com isso, que eu decidi beijá-la em sua boca. Um beijo gentil e suave. Não há porque entrar em detalhes tal porque ele foi breve. O que há de anormal nisso é só que esse gesto não condiz com a amizade que temos.

Logo após nos sentamos em poltronas que estavam quase de frente uma para a outra. E eu dizia que estava muito feliz por ela estar lá, e expliquei-a que eu costumava freqüentar aquele lugar quando eu era pequeno. E quem diria, lá estava ela ali comigo. Nesse momento era possível ver a tal ponte pela janela que ficava atrás dela. E ela não estava olhando para mim, mas para a porta que estava atrás de mim. E lá estava de novo aquele olhar de tristeza nos olhos dela. Ela parecia olhar para aquela porta como quem esperava por alguém.

Por essas surrealidades de sonhos, de repente parecia que eu não estava mais sentado ali na frente dela, mas sim como se eu estivesse recebendo a visão dela estando triste em um bar esperando por alguém que nunca aparece. E nisso eu pensei se não haveria algo de errado com o namorado dela. Algum desencontro. Algo que a deixasse daquele jeito.

Quando eu parei de prestar a atenção nela para prestar a atenção em mim, eu estava no outro lado do bar, sentado a uma mesa, e aquilo agora parecia ser outro dia. Pois o céu estava diferente e ela não estava mais lá. Tocava uma música antiga que vinha da televisão. Música de minha adolescência. E que naquele momento eu estava compreendendo aquela música de uma outra forma.

Então isso passou-me a impressão de que eu estivesse no bar, sozinho em um tempo futuro e me recordando de um tempo passado quando eu a vi por ali naquela festa.

Eu, sentado a uma mesa de bar, com um copo de chá a minha frente, assistindo a uma televisão que estava próxima ao teto, e pensando nela conforme os personagens daquele vídeo musical pareciam sair da tela e a encenação acontecer à minha volta sobrepostamente. E no momento seguinte eu acordei chorando.

Eu não sou muito de chorar, acho que como todos os homens que crescem em uma cultura em que se prega que o homem deve ser rígido forte e nunca chorar. Mas essa é a segunda vez que eu choro nesse mês. A vez anterior eu ainda não tive tempo de escrever, mas eu ainda o farei. Pois não escrevo exatamente para publicar, mas sim para me compreender melhor. Quando escrevemos, nós colocamos os fatos e pensamentos em ordem em uma velocidade que facilita a compreensão. E tudo o que eu mais quero é compreender de forma que eu possa ir embora afinal.

Talvéz eu esteja apenas sensibilizado pois na verdade eu odeio o mês de Outubro. Para mim o final de ano começa nesse mês, e eu não me sinto bem em finais de ano, especialmente em celebrações de “reveillon”. Não sei ao certo. Também não sei porque essa moça em questão me é tão preciosa ao ponto de ser uma tortura para mim a idéia dela estar triste, mal ou doente.

E ainda que ela não esteja, e que foi algo somente que eu sonhei, eu fico péssimo. É uma tortura para mim. Eu tenho pesadelos também. Sonhos com perseguições, com monstros, com desgraças, etc... Mas um sonho com ela, ainda que belo visualmente como o dessa noite foi, se o contexto for ela triste, ao acordar o sonho repercute mal em mim ao longo do dia, tal qual um pesadelo faz.

Eu ainda hei de entender isso tudo, e saber o que é o símbolo que usa a imagem dela para se comunicar comigo em meus sonhos.

Por vias das dúvidas, eu agora faço minhas preces a ela. Rogo para aquilo que eu acredito proteja ela dos males desse mundo. Para o bem estar dela, e também porque eu me machuco indiretamente sempre que algo de mal lhe acontece.

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Ás

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